segunda-feira, 26 de abril de 2010

Canções de Ninar

.

Todos os créditos para o Anarco.
Foi por esse post antigo que me apaixonei por esse blog.
Me desculpe, querido, mas eu queria muito postar aqui.




Imagine, por um instante, que você tem um filho.

Se você já tem um filho não leia mais nada, por favor.

Mas não pare por aqui. Dê realismo à essa imagem. Pense na sua esposa ou em você mesma, grávida. Com aquela barriga redonda e linda, com tantas promessas.

Pense em todos os exames pré-natais. Pense na sua apreensão. Pense no resultado desses exames. Todos perfeitos, um atrás do outro, culminando com um nascimento perfeito, com direito a médico jogando a placenta em você pra dar um pouco de risada.

Pense no seu filho, recém nascido, cabendo na palma da sua mão.

Agora imagine que é seu dever educar seu filho ou sua filha, e ensinar tudo o que ela precisa saber pra viver.

Mas não pense apenas que é seu dever. Pense que é sua vontade. Que você não quer, de forma alguma, que ele ou ela sofra na vida.

Agora imagine você tendo que ensinar pra ele a única e derradeira verdade que existe: dali, pra frente, é dor.

Como você explicaria pra esse filho que você ama que ele vai sofrer?
Como você explicaria que as coisas mudam e o mundo roda como um moinho que vai moer seus sonhos tão mesquinhos? Que promessas de amor foram feitas para serem quebradas? Que pessoas deixam de amar as outras de uma hora pra outra, por causa de um suspiro de um desavisado, entre uma valsa e um tango?

“Ciranda, cirandinha vamos todos cirandar, vamos dar a meia volta, volta e meia vamos dar. O anel que tu me destes era vidro e se quebrou. O amor que tu me tinhas era pouco e se acabou.”

Como você explicaria que, não importa o quanto você trabalhe e lute pra conquistar algo, você vai perder por estar no lugar errado na hora errada? Que a vida não liga pra méritos? Que a vida não liga pra nada? Que vem a chuva de verão lavando lágrimas, que vem a demissão levando economias, que vem o pé na bunda levando sonhos, que vem um acidente de carro levando amigos, que vem uma doença levando a alegria e que tudo um dia a vida derrubou?

“A dona aranha subiu pela parede… mas veio a chuva forte e a derrubou.”

Como você explicaria que algumas coisas quando ditas não voltam? Que não inventaram nenhuma forma de re-implantar lágrimas? Que desculpas são uma admissão de culpa, não uma solução? Que não importa se você sinta muito, os outros sentem mais? E que não importa o quanto você chore, grite, berre, peça, implore, soluce, e se despedace, algumas coisas não se consertam?

“Humpty Dumpty sentado no muro. Humpty Dumpty caído do muro. Nem todos os soldados do Rei conseguiram colocar Humpty Dumpty inteiro outra vez.”

Como você explicaria que ela vai amar alguém que não a ama? Como você explicaria que alguém que ela não ama vai a amar e vai fazer de tudo para tê-la, da mesma forma que se tem um objeto? Como você explicaria que talvez os dois se amem, mas acabem se odiando, e queiram machucar um ao outro só porque o outro o machucou antes? Como você explicaria que ninguém nem se lembra quem machucou quem primeiro, mas nenhum dos dois sabe perdoar, mas todo mundo sabe ser cruel quando quer?

“O cravo brigou com a rosa, debaixo de uma sacada, o cravo saiu ferido e a rosa despedaçada.”

Como você pretende explicar que a vida não é justa? Como você pretende explicar que o amor da sua vida simplesmente não é capaz de corresponder às suas expectativas?

“Pirulito que bate bate, Pirulito que já bateu, Quem gosta de mim é ela, Quem gosta dela sou eu. Pirulito que bate bate, Pirulito que já bateu, A menina que eu gostava, Não gostava como eu.”



Tente explicar que viver é dor e que morrer é trocar uma dor certa por um sofrimento desconhecido. Tente explicar que nada nem ninguém pode proteger você de uma dor que é tão inevitável que já nascemos chorando.
Tente explicar, mas antes me diga: Você já entendeu?


Retirado de http://anarcoblog.wordpress.com

3 comments

Ato Abstrato disse...

Você escreve muito bem... simples!
Adorei esse texto. Assim como todo o blogue.
Fez bem em republica-lo, de outra forma eu não teria o conhecido. Assim como tantos outros, eu garanto!

anarcoblog disse...

Nossa, fofa... que honra!
Mto obrigado mesmo!

Beijos!

Raphael Trew disse...

Este texto ficou muito bom e mostra que as cantigas de criança, são mais adultas e maduras que imaginávamos. Desde pequenos nos tentam ensinar que uma brincadeira de criança !

Obrigado pelo comentário, e devagar vou tentando torna lo mais conhecido !!

até !!!

:a: :b: :c: :d: :e: :f: :g: :h: :i: :j: :k: :l: :m: :n:

Postar um comentário